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Este conto
foi escrito por mim em 2001, originalmente em inglês,
para um concurso literário.
Em 2006
conclui a tradução. Desde então
fico entre a vontade de publicá-lo aqui ou trabalhar um
livro a partir dele, tarefa que nunca tive tempo ou
disposição para cometer: resolvi publicá-lo on line.
Caso queira
fazer o download do texto completo, em formato PDF,
clique aqui. |
Capítulo I
"Todo
homem tem três personalidades: a que exibe, a que possui e a que
julga possuir." (Alphonse Karr)

William Delbury saiu do The Cat of the Red
Painted Tail Pub, por volta das 23:00h. Cambaleava entre um e outro
passo.
-
Diabo! Exclamou ele, ao tropeçar na sarjeta, quando dobrou a esquina
da Lancaster Road com a Melborne Street, onde, dois quarteirões
acima, morava em um quarto e sala alugado.
Sempre
recorria àquela expressão quando, sob os efeitos da cerveja do The
Cat, dobrava aquela esquina, cujo desnível o fazia tropeçar.
-
Diabo! Era de novo William ao tentar acertar a fechadura do seu
apartamento na Ambrose House.
-
Diabo! William não conseguia acender a calefação para que pudesse
dormir naquela noite fria de Londres.
A
palavra diabo se fazia presente em quase todas as frases de William.
Tornara-se, para ele, uma interjeição em todas as ocasiões.
Só
mudavam os tons que as circunstâncias exigiam, mas, fosse por
alegria ou tristeza, por pesar ou contentamento, indignação ou
júbilo, lá estava a palavra a sair-lhe da boca.
O dia
seguinte amanheceu ansioso. A noite de Londres seria alegre: era a
ante véspera do natal.
William vestiu sua melhor roupa, colocou as polainas no sapato e
rumou para a Hyde Central Road, onde morava a dona do seu coração:
Gweneviere Stantson, uma bela jovem, cuja família houvera chegado,
há dois anos, em Londres, vinda de Stratford-on-Avon.
William conheceu a Senhorita Stantson através da tia da mesma, que
era sua colega de trabalho, na biblioteca da Scotish Public
Secondary School.
Naquela noite eles faziam dois anos de namoro. William pretendia
pedi-la em casamento assim que conseguisse uma promoção, já
garantida pelo conselho da escola.
Após
as compras, e de ter deixado a Senhorita Stantson em casa, William
passou no The Cat.
O
mesmo caminho de volta, o mesmo tropeço na sarjeta da Lancaster com
a Melborne, os mesmos diabos de sempre.
-
Diabo! William queimara os dedos ao tentar aumentar a calefação do
quarto.
Não
conseguindo manejar o velho aquecedor, resolveu ir dormir na sala,
onde o aparelho funcionava melhor.
Parou
assustado ao chegar na sala e deparar com um cavalheiro que estava
sentado na poltrona que ficava ao lado da janela.
O
cavalheiro, quando o viu, levantou-se. William, ainda assustado,
entre correr e avançar para o intruso, notou, pela penumbra da
iluminação da rua, um cavalheiro bem apessoado, traços finos,
trajando um terno bem talhado e que lhe caia perfeitamente em um
corpo esbelto e retilíneo.
Uma
bengala de finíssimo cedro, cravejada com marfim e brilhantes,
apoiava-se entre o chão do apartamento e a mão direita do estranho
cavalheiro.
Na
outra mão, o cavalheiro segurava, elegantemente, a cartola, que
tirou da cabeça ao levantar-se.
- Quem
é você? Como entrou aqui?
- Você
me chamou, William. Respondeu o cavalheiro com uma voz serena, mas
impávida.
- Eu
não chamei ninguém! O que deseja?
- Sim,
William, você me chamou. Você sempre me chama. Você me tem chamado
por toda a sua vida, todos os dias. Resolvi, hoje, atender o seu
chamado. Estou a sua disposição. O que deseja?
Um
frio passou na espinha de William. Poderia ser o que ele estava
pensando, ou aquilo não passava de uma brincadeira dos amigos do The
Cat?
- Não
me diga que quer dizer que é o Diabo? Retrucou William, mais para
ele mesmo que para o seu visitante, com um sorriso incrédulo e ao
mesmo tempo nervoso.
- Sim,
William, não sou uma brincadeira dos seus amigos do The Cat. Sou o
diabo, a quem você sempre chama.
- Mas
o diabo não deveria ter um enorme rabo, chifres, patas de bode e a
minha sala não deveria estar impregnada do seu terrível cheiro de
enxofre? (William ainda preferia acreditar que tudo não passava de
uma brincadeira)
- Meu
caro William Delbury, o diabo se pode apresentar de diversas formas,
e estar nos mais insuspeitos lugares. Você pode encontrá-lo no The
Cat, em uma esquina escura, nos púlpitos até...
- Como
poderia me provar que é o que diz?
-
Custa caro me colocar à prova, Senhor Delbury...
- Pois
eu quero pagar preço! Vamos prove!
-
Insisto que não me deveria por à prova, Senhor Delbury...
- Você
é uma farsa! Vamos, prove!
- Está
bem. Depois de amanhã, na noite de natal, você terá uma surpresa,
William. Verá que eu sou quem digo ser, e pagará o preço que se
propõe, por duvidar.
O
cavalheiro vestiu a cartola, agasalhou a bengala embaixo do braço e
estendeu a mão em despedida.
William sentiu uma mão fina e macia, mas firme, apertar as suas.
-
Estamos acordados então?
- Sim,
claro. Depois de amanhã. Respondeu William.
-
Depois de amanhã, Senhor Delbury.
William acompanhou, por detrás da cortina da janela, o cavalheiro se
afastando em direção à Lancaster Road. De repente, pareceu-lhe que o
cavalheiro se envolveu com a bruma densa da noite londrina e
desapareceu.
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