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A crise que envolveu a eleição,
em novembro de 2008, da Mesa Diretora da
Assembléia Legislativa do Pará teve muitas versões:
aqui estão os fatos.
O título é o mesmo da comédia “Much ado about nothing”,
onde o bardo mistura banquetes, príncipes, condes e
damas, que se embrenham em calúnias, perfídias, duelos,
fugas, dores e amores: Shakespeare.
E tudo por
algo não tão bem entendido ou explicado: apenas
caprichos humanos.
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Sexta-feira, 28.11.08 - O anúncio da crise
Minha filha passara no concurso do
Ministério Público Federal, que a lotou em Altamira. Eu e Ann
viajaríamos à tarde para preparar o apartamento que houvéramos
alugado para acomodá-la.
Pela
manhã o meu celular chamou. O nome do Deputado Domingos Juvenil, Presidente do Poder
Legislativo do Pará, apareceu no visor. Ele narrou-me um telefonema que acabara de
receber da Governadora do Estado.
Sua
Excelência recusava veementemente a participação do PSDB na 1ª
vice-presidência da mesa diretora da Assembléia Legislativa do Pará.
“Ela
não aceita o PSDB em lugar algum da mesa”, narrava-me o Deputado
Juvenil, “e rompe com o PMDB se isto não for desfeito”, completava o
relato.
Sugeri
que nos dirigíssemos ao Diário do Pará, onde estava o Deputado Jader
Barbalho, Presidente Regional do PMDB.
Na
extremidade direita da enorme mesa de madeira de lei da sala de
reuniões do Diário do Pará, estava sentado o Deputado Jader Barbalho
e seu assessor Antonio José, que me ouviram o relato do telefonema
do Deputado Juvenil.
A primeira decisão foi vetar a minha viagem para Altamira naquela
tarde.
O
Deputado Juvenil chegou. Sugeriu procurar o PSDB, explicar a
situação, e pedir à agremiação que aceitasse a saída da chapa, o que
foi refutado pelo Deputado Jader Barbalho: o PMDB houvera convidado
o PSDB para compor a 1ª vice-presidência e não poderia
desconvidá-lo em um primeiro soluço vindo do Palácio dos Despachos.
Naquele momento se estabelecia o impasse até então mais grave na aliança que
se estabelecera entre o PT e o PMDB, no segundo turno da eleição majoritária dois anos antes. Por
ironia eventual, a aliança fora selada naquele mesmo prédio do
Diário do Pará.
Fiz
uma ligação ao Chefe de Gabinete do Palácio dos Despachos, Claudio
Puty. Argumentei que a aliança com o PSDB à mesa era originalmente
tática e não extrapolava os limites do Poder Legislativo.
Acrescentei que não havia razões para uma crise na
aliança, já esgarçada por motivos outros, pelo fato de o PSDB ter
alcançado uma posição diretora que não tinha maiores
repercussões na administração da pauta legislativa.
O
Chefe de Gabinete retrucou que a posição da Governadora estava
mantida e que não via razão para adicionar o PSDB na mesa, já que o
Deputado Juvenil houvera, com outros partidos, garantido a sua
reeleição.
O
diálogo era previsível e medido. O intento, todavia, houvera sido
alcançado: estabelecer uma correspondência qualificada com o
Palácio, no meio da crise, pois se sabia que no momento em que ela
vertesse às ruas, aqueles cuja expertise é jogar lenha na fogueira
iniciariam o serviço.
Avaliamos que a ameaça de rompimento não seria considerada, pelo fato de não termos
receio algum das respectivas conseqüências: o PMDB, e nem um dos
seus próceres, conseguira, até agora, algo substantivo na aliança
sempre estressada com o PT, por isto, não nos era sacrifício ir para
a oposição.
O
Deputado Jader Barbalho sugeriu que nos mantivéssemos em vigília, à
espera do próximo movimento do Palácio e, dependendo deste,
organizaríamos a resistência.
Saímos para
almoçar na casa do Deputado Juvenil. Antes de chegarmos ao destino recebi um
telefonema. Alguém do outro lado da linha pedia-me para ser
recebido: disse aos deputados que eles não teriam a honra de ter-me
à mesa e rumei a minha residência onde marcara com o interlocutor.
Em
casa, no meu gabinete de trabalho, a conversa com a figura que me
ligara começou algo tensa. Observei que não poderíamos fazer o papel
do guerreiro alucinado: aquele que, no calor da liça, golpeia para
todos os lados e acaba decepando o próprio pescoço.
Amainou-se, ao meio, a conversa. Ao final, estabeleceu-se um pacto:
tentar dissolver o impasse para salvaguardar a governabilidade
serena que o Palácio houvera tido nos dois anos que se findavam.
Todavia, havia certa imponderabilidade na empreitada: como
equacionar uma chapa à mesa sem o PSDB, a vontade da governadora, se
o PMDB já o houvera convidado, e não tinha intenção de,
unilateralmente, fazer-lhe o distrato?
Enquanto isto, no governo, iniciou-se o movimento que se
intensificaria a partir do sábado: montar uma chapa palaciana para a
defenestração do PMDB da Presidência do Poder Legislativo.
No
final da tarde, chegou uma mensagem da Governadora no celular do
Deputado Juvenil: ela não poderia recebê-lo à hora
aprazada na ligação da manhã.
Lemos
a mensagem como a senha para a nossa arregimentação:
precisávamos nos preparar para a contenda.
Recebi
uma ligação do Palácio: o Puty convidava-me para um café, no sábado
pela manhã.
Participei o encontro ao Deputado Jader Barbalho, que aquiesceu,
estabelecendo os limites do diálogo.
Terminei o dia com a sensação de que o rompimento com o PT estava na próxima esquina.
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