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Domingo, 26 de novembro de 2.000

Moju tem superbezerro de 403 kg

Vânia Torres - Especial para O LIBERAL

Quando se fala em búfalos logo vem à mente aquela imagem do rebanho se refrescando em terras alagadas. Mas no município de Moju, na região do Baixo Tocantins, a 50 quilômetros de Belém, a paisagem é completamente diferente dos campos do Marajó. E mesmo em terra-firme e condições adversas é lá, na Fazenda Santa Isabel, que um superbezerro está chamando a atenção.

X-Búfalo da SI, como foi registrado, pesou 403 quilos no dia 15 de novembro, aos 10 meses e 23 dias, o que foi confirmado pelo veterinário José Carlos Teixeira, diretor técnico da Associação Paraense de Criadores de Búfalos. “É uma raridade! Tem o peso de um animal de dois anos”. E o mais interessante: X-búfalo da SI foi criado se alimentando apenas de leite materno e pasto. E, como os outros animais da fazenda, não conhece ração.

Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Búfalos não se tem registro ou acompanhamento de um búfalo Murrah dessa idade, com esse peso e sem ração na alimentação. “É um fato inédito”,comemora Eduardo Daher, proprietário da fazenda Santa Isabel. “Quando dizia que atingiria essa meta em regime exclusivo de peito e pasto ninguém acreditava”, conclui.

X-Búfalo da SI já nasceu com um peso excepcional: 51 quilos. A média de peso do bezerro ao nascer é de 30 a 40 quilos. A explicação pode vir da genética. Ele nasceu a partir de inseminação artificial. “Eu acho um grande resultado. É um diferencial em termos de búfalo. Nós pecuaristas temos que perseguir esse resultado. A maioria dos criadores do Pará ainda não faz o controle do rebanho que o Eduardo Daher faz”, afirmou o pecuarista Luis Burlamaqui, da Cooperativa dos Fazendeiros do Pará.

Interesse - O interesse pelos bubalinos começou em 1986, por puro hobby. Eduardo criava búfalos nos fundos de uma metalúrgica, na periferia de Belém. Logo percebeu que era impraticável manter os treze animais em uma área urbana e pequena.

Eduardo Daher é um dos poucos criadores da região. Apostou inicialmente em uma área de várzea, porque achava que seria o ideal para a criação de bubalinos, mas logo vieram as dificuldades. O manejo do animal era inviável e os problemas com as cercas eram enormes. Os búfalos têm muita força e se deslocam bastante, principalmente à noite. “Na várzea, eles metiam a cabeça na cerca e levantavam na marra 4 ou 5 estacas”, lembra Eduardo, que é diretor tesoureiro da Associação Paraense de Criadores de Búfalos.

O passo seguinte foi partir para a experiência com criação de bubalinos em terra firme. “Comecei a observar que a taxa de crescimento dos animais era melhor e o manejo mais fácil”, ressalta. Na área atual da fazenda o empresário cria 118 búfalos adultos da raça Murrah e 37 bezerros.

Antigamente se pensava que as pouca glândulas sudoríparas dos búfalos e a cor preta, que absorve mais calor, eram um empecilho para a sobrevivência em áreas secas. Hoje já se sabe, por experiência, que não é bem assim.

Rebanho - Eduardo Daher é um dos poucos criadores preocupados com o melhoramento genético do rebanho. Com a pesagem mensal é possível produzir um histórico dos animais e, com isso, selecionar cada vez mais os búfalos de maior produtividade. Outra vantagem também é que os animais ficam mais dóceis e não se estressam quando são levados ao curral e, portanto, não perdem peso ao serem manejados.

Quando alcançam o peso de 400 quilos, antes de completarem 24 meses, os machos são descartados, pois a curva de crescimento, a partir daí, passa a ser menor.

As búfalas têm uma grande vantagem: são precoces para a fertilidade. Começam a parir aos dois anos de idade. Só pra se ter uma idéia 45% das fêmeas nascidas em 1998 já pariram. E 100% das fêmeas de 1997 já deram cria. Elas amamentam durante 8 meses.

“Quando da minha primeira visita técnica à fazenda de Eduardo Daher fiquei muito impressionado com o estado nutricional dos animais, mesmo em condições adversas de manejo. Hoje me considero muito satisfeito em saber dos excelentes resultados obtidos pelo pecuarista”, declarou Moura Carvalho,pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

Produtor investe de olho no mercado da carne

Eduardo Daher começou a experiência com inseminação artificial há 4 anos, acatando sugestão do pesquisador e veterinário William Vale, na época coordenador geral da Cebran- Central de Biotecnologia de Reprodução Animal, da Universidade Federal do Pará. O sêmen coletado na Central é diluído com água de côco, o que tornou a técnica bem mais barata. Foi a primeira experiência nesse sentido e deu certo. “Até hoje temos nos abastecido de sêmen junto à Cebran, que é um dos poucos lugares no Brasil que produz sêmen de búfalo de qualidade comprovada,”, afirma Eduardo.

No Pará poucos pecuaristas fazem inseminação. Na maioria dos casos esse número é baixo por falta de tecnologia e de conhecimento. “Muitas vezes se gasta 5.000 dólares por um bom touro, quando se pode gastar 15 a 20 reais por uma dose de sêmen”, disse o presidente da Associação Paraense dos Criadores de Búfalo, Roberto Rodrigues Fonseca.

Preconceito - Não se tem números exatos, mas sabe-se que o Pará é o maior criador de búfalos do Brasil, com 50% do rebanho nacional. Os dados são da Associação Paraense de Criadores de Búfalos. “O problema ainda é o preconceito contra a carne de búfalo, que não tem tradição de consumo”, diz José Carlos Teixeira. “Com o marketing em cima da comercialização do Baby Búfalo,animais criados a peito e a pasto de no máximo 2 anos, já conseguimos elevar a procura. Esse tipo de carne já está tendo grande aceitação no mercado nordestino para onde já estamos exportando”, acrescenta.

A expectativa dos mais de 800 criadores de bubalinos do Pará está na queda das barreiras sanitárias de controle da febre aftosa, quando será possível exportar para o Sul e o Sudeste do país. “Acreditamos que estas barreiras serão superadas a partir de 2005, quando já deveremos estar produzindo um búfalo com melhor qualidade e maior produtividade”, planeja Daher.

Atualmente o Pará exporta 300 a 400 búfalos por mês, o que representa 150 toneladas de carne de Baby Búfalo. Mas essa produção ainda está bem abaixo do consumo esperado. “A oferta é bem menor que a procura”, afirma o pecuarista Roberto Fonseca, que aposta na expansão do rebanho para o abate.

A comercialização de carne de búfalo é extremamente promissora. Os animais atingem o peso ideal bem mais cedo que o gado bovino. Além disso é possível conquistar facilmente o mercado consumidor apostando na qualidade da carne, que tem 40% menos colesterol, 11% mais proteína, 10% mais minerais, 55% menos calorias e é 12 vezes menos gordurosa que a carne de bovino, por isso traz o selo “light”.

A fazenda Santa Isabel tem um site na Internet que já recebeu 2.000 visitas (http://www.interconect.com.br/bufalo) desde agosto de 1999. O site apresenta informações curiosas para quem se interessa pela criação de búfalos e dados sobre o rebanho da fazenda. A página tem viabilizado a visita de estudantes, criadores e profissionais da área, inclusive do exterior à fazenda Santa Isabel.

 

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